Um dos elementos que ajudam a definir o conceito de democracia é sem dúvida a instituição de "um homem, um voto" tanto quanto o da "igualdade de todos perante a lei".

Mas será que um clube desportivo terá os mesmos pressupostos, conceitos e objectivos do que uma democracia num qualquer País? Será que a atribuição pura e dura de igualdade de voto a todos os sócios independentemente da sua antiguidade contribuirá para tornar o nosso clube ainda maior e mais forte no futuro?

O problema é que os clubes não são países e os sócios não são o povo. Um Clube trata-se de uma agremiação desportiva em que só podemos votar enquanto somos sócios, e só somos sócios enquanto pagamos quotas. Podemos por isso deixar de ser sócios e ainda sermos adeptos... Há toda uma diferença... Até porque como se vê, em muitos Países, a instabilidade potencial das democracias participadas não permite a orientação adequada para fazer muitas vezes as reformas necessárias e o que tem que ser feito.

Os sócios são os donos do clube e será que os que são há 30 anos são mais donos do que os que são há 3 anos? Terão mais direitos? O nosso clube é dos sócios, sempre ouvi dizer, mas tem que ser de todos os sócios.

Há hábitos e formas de funcionar de tal forma enraizados na nossa sociedade e nas nossas vidas desportivas e associativas, e não só no nosso clube, que já quase ninguém se pergunta se são hábitos e regras justas, racionais e se contribuem para algo de realmente positivo. Um desses hábitos é sem dúvida o de dar mais votos aos sócios mais antigos, nos clubes desportivos.

Em minha opinião, são 4 os argumentos teoricamente em favor dessa medida:

  1. o de os sócios mais antigos terem contribuições financeiras mais relevantes ao longo da sua vida de associado
  2. o de terem maior amor ao clube (?)
  3. o de evitar o perigo de novos/recentes sócios vencerem eleições com objectivos dúbios, perigosos e aventureiros
  4. evitar a arregimentação de novos sócios apenas para vencer eleições

Vou tentar abordar os 4 argumentos acima evocados:

  1. o primeiro não faz qualquer sentido, seria fomentar a mais valia de sócios com mais poder económico ou no caso de Países, quanto mais IRS os eleitores pagarem mais votos poderiam ter?
  2. o segundo é facilmente desmontável, um sócio que se tornou sócio à nascença por vontade dos pais é mais sportinguista e mais apegado ao clube do que qualquer outro que por decisão própria se inscreveu na vida adulta por paixão já quando tinha capacidade financeira para tal?
  3. o terceiro e quarto argumentos têm uma solução fácil, que consiste em dar direito de voto apenas após alguns anos de sócio, anos esses a definir.

Acho, portanto, que este sistema deverá ser repensado, mas com cuidado, com ponderação e se alterado tal deverá ser efectuado de forma gradual e progressiva porque:

  1. Para além de injusto, poderá ser contrário aos interesses de crescimento sustentado do nosso clube.
  2. Os sócios não podem ser tratados de forma diferente, como se uns fossem de primeira e outros de segunda, quando as diferenças podem ser apenas meia dúzia de anos de associado.
  3. O clube perde com certeza capacidade de crescimento ao ostracizar os sócios mais novos/recentes e eventualmente mais dinâmicos e empenhados, em contraste com os mais velhos, mais adaptados, acostumados e contrários às mudanças.

As direcções e os governos tendem a governar para quem os elege, neste caso para quem tem mais votos, isso pode contribuir para atrasar a modernidade, desenvolvimento e crescimento do Sporting.

Parece-me que o caminho deverá ser gradual e progressivo, ir diminuindo a diferença de votos por antiguidade até finalmente nos aproximarmos da regra democrática de "um homem, um voto" e o clube pertencer a todos os sócios independentemente da sua raça, género, sexo, ascendência, língua, nacionalidade ou terra de origem, condição económica e social, convicções politicas, ideológicas, religiosas... e ANTIGUIDADE de sócio.

Jacob Frischknecht
Sócio desde 1979 – nº 7935-1
Médico
Especialista de Ortopedia e Medicina Desportiva
Médico da Sporting SAD de 2006 a 2011
Médico da Federação Portuguesa de Judo
Médico do COP aos Jogos Olímpicos de Pequim 2008