O voto sempre foi um dos grandes dilemas das democracias. Na sua génese, na Antiga Grécia, apenas eram elegíveis para votar os chamados "cidadãos", vulgo homens com mais de 19 anos, donos de terras, residentes em Atenas e filhos de pais atenienses. Calcula-se que menos de 30% da população estaria habilitada a participar numa eleição.

A história trouxe muitas modalidades e os universos eleitorais foram-se adaptando às várias concepções quer de democracia, quer da qualidade da cidadania. O voto sempre esteve ligado à própria imagem da importância do ser humano num contexto social. Politicamente chegámos ao estado mais puro e na esmagadora maioria dos sistemas democráticos, a equidade é total. O jovem adulto tem a mesma influência que o sexagenário. A mulher tem a mesma importância que o homem. O empresário milionário e o desempregado de longa duração elegem de forma igual os seus representantes.

O associativismo não é um modelo recente de organização. É até muito mais antigo que as primeiras experiências de regimes democráticos e bastante mais remoto que o sistema de voto. As primeiras estruturas de coletivismo nascem assim que o ser humano foi capaz de articular formas de partilhar recursos num grupo, de forma organizada e permanente. Os bandos passaram a tribos, as tribos deram lugar a cidades e as cidades a estados.

Dentro da estrutura macro do associativismo, nascem centenas de declinações. Classes, grupos, partidos, lojas, sindicatos, guildas e no final do séc.XIX os clubes de futebol. As coletividades desportivas de "football" surgem num momento muito particular da história mundial. Surgem numa explosão demográfica, durante grandes migrações para as cidades e quase todos partilham um forte cariz popular. O futebol cresceu alimentado por uma nova massa de pessoas que precisava de ser estimulada no seu sentimento de pertença, na sua necessidade de entretenimento, em novos símbolos regionais, novos heróis, novas formas de confronto.

Hoje em dia, o sistema de voto em clubes de futebol é bastante diversificado. Desde o sistema puro a múltiplas formas de qualificar os eleitores, há para todos os gostos, mas da recolha possível que fiz, a tendência quer em clubes de futebol, quer em outras formas de associativismo, sempre foi a aproximação ao sistema político vigente. Há inovações, como a recente importância dada aos adeptos e sócios que são mais assíduos no acompanhamento físico da vida dos emblemas.

A minha visão sobre o tema é clara. Defendo o sistema mais equalitário possível. Por todas as razões, mas principalmente pelos motivos mais racionais, acredito que não devem existir qualidades distintas de voto, ou seja, que não devem existir qualidades diversas de sócios. E defendo isto por duas razões muito simples de entender:

1/ Não há qualquer indicador que um sócio com mais antiguidade, seja um eleitor mais qualificado.

Hoje em dia conheço vários jovens de 17, 18 ou 19 anos que seguem com bastante mais interesse a vida do Sporting que muitos associados com 30 ou 40 anos de sócio. Convém não menosprezar a qualidade e quantidade da informação que advém do seguimento e debate das redes sociais em puro contraste com a passiva receção das notícias transmitidas pela comunicação social via TVs ou jornais.

2/ A antiguidade não é um privilégio, mas sim uma responsabilidade

Ter mais anos de sócio não pode ser visto como uma conquista pessoal, algo que deva ser gratificado ou recompensado. Essa é uma subversão do que significa ser sócio do Sporting. Ser um associado, na minha opinião, é uma expressão voluntária de querer estar agregado a um conjunto de outras pessoas com o mesmo interesse, com a mesma vontade de participar. Ou seja, o espírito do gesto é o de contribuir, dar, colaborar ou ajudar. Não é o de receber, ser premiado, ser reconhecido ou distinguido. Na minha visão, ser sócio do Sporting Clube de Portugal é querer ajudar a engrandecer o emblema, é unidirecional. De mim, para o Clube. De mim, para todos os outros, iguais a mim.

Ao reconhecer que um associado com mais antiguidade é mais qualificado que outro com menos, parte-se de pressupostos subjectivos que quebram o mais importante elo que liga o ser humano a outro, a equidade. A partir deste condicionamento nascem múltiplos outros que afectarão sempre o debate e a aproximação entre o que constrói verdadeiramente o clube – o seu ideal de adesão. Acho sintomático de uma sociedade profundamente individualista e hedonista que alguém se ache menorizado pelo clube, por ter o mesmo peso que outro indivíduo numa eleição, quando tem mais não sei quantos anos de sócio.

O que verdadeiramente causa indignação? Sou mais sábio que o outro? Dei mais dinheiro ao clube que o outro? Fui mais fiel ao emblema que o outro? "Eu... eu... eu... eu" e sempre mais "eu". "O que eu fiz". "O que eu dei". "O que eu acredito". Um resumo perfeito da ilógica da colaboração, da concepção primordial do associativismo. É sempre o regresso à diferença e não à progressão da igualdade. Porque não distinguir o voto entre homens e mulheres? Será que as mulheres não vão votar pelos candidatos mais bem parecidos e charmosos? Porque não diminuir a qualidade do voto aos emigrantes? É que estes podem não seguir o clube com tanta regularidade ou proximidade. Ou aos desempregados? Ou aos que cometeram crimes? A quem é filho de adeptos de outros clubes? Aos que não têm terras ou nasceram fora desta Atenas lusófona?

Que sentido faz, manter a antiguidade como o último reduto de preconceitos completamente desajustados e impossíveis de defender racionalmente como úteis do nosso sistema democrático? Devemos manter esta distribuição como forma de "manter motivados os sócios" a continuar a sua participação? Se formos defendendo ou fazendo estas concessões em nome da permanência ou em troca da fidelização ao clube, então meus caros, o associativismo está ferido de morte e não faz qualquer sentido defendê-lo.

Se a lógica é somar direitos para governar o clube e não apenas participar no seu engrandecimento (sem qualquer bonificação pelo gesto) não estamos perante um "clube de iguais", mas sim um clube de "diferentes". Um clube onde não interessa o que queres ou podes dar ao clube, mas sim o que tens direito a receber em troca do teu favoritismo. Isto para mim não é o Sporting do futuro, é um arrasto do Sporting do passado, do cheiro a Mocidades, a charuto de contrabando, a saudações matinais à Pátria, a elitismos vazios, sejam eles contributivos ou geracionais.

Um ser humano. Um voto. Um(a) Sportinguista. Um voto.

A única coisa que interessa é o que damos ao Sporting e não as vantagens que o Sporting nos pode dar a nós. Repito e concluo, não há nenhum dado científico que comprove que um sócio com mais antiguidade decida melhor que outro com menos. Logo, não há qualquer vantagem para o nosso clube que esta regra persista e sendo o mais racional possível, serei partidário de alterações de estatutos onde se esbatam completamente estes condicionalismos.

O fantasma da inscrição súbita de sócios que venha a desvirtuar uma eleição é apenas isso, um fantasma. Há períodos de carência que contornam completamente essa questão e convenhamos que não existe um único caso que sirva de prova para o perigo dessa ocorrência. Um clube não pode travar a sua evolução por receios infundados. O Sporting não é uma religião estancada e travada por dogmas, somos uma associação livre composta por pessoas inteligentes, emancipadas e autodeterminadas.

ZeroSeis
Sócio desde Março de 2015
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