«Queremos descentralizar o Sporting de Lisboa. No próximo ato eleitoral teremos voto eletrónico. É uma garantia»

As palavras são de Frederico Varandas, presidente do Sporting Clube de Portugal, numa entrevista publicada no final de 2018 e que assinalava 100 dias à frente do clube de Alvalade.

Vou escrever novamente: à frente do clube de Alvalade. Há aqui qualquer coisa que não bate certo, não há?

Claro que podemos afirmar que a expressão “clube de Alvalade” é tão natural quanto a associação às raízes daquele que se assume como o Clube de Portugal, mas a questão vai mais longe: há quanto tempo o Clube de Portugal se comporta como o clube de Alvalade? Ou, se preferirem, há quanto tempo se fala de uma reforma dos estatutos, esse fantástico manifesto eleitoral que, no descolar dos cartazes, vai sendo trabalhado à medida que melhor encaixa no fato das novas direcções?

Ainda recentemente, aquando da aprovação do novo orçamento, quem quisesse consultá-lo tinha que dirigir-se a Alvalade (lá está) e, na confortável pose de análise ao balcão, tirar as suas devidas ilações. Ou, se quisermos recuar oito anos no tempo, podemos recordar uma assembleia onde se votavam, entre outros, temas como a descentralização do voto, o voto electrónico e por correspondência, o direito ao voto a todos os sócios ou novas categorias de associado e escalões diferenciados de quotas. Sabem quantos sócios participaram e, com o seu voto, deram luz verde às alterações no então presente e futuro do clube? 400.

Isto é e tem sido a imagem de pirâmide democrática do Sporting. O Clube de Portugal, invariavelmente transformado no clube de Alvalade.

E, mais do que assacar culpas, importa olhar para o futuro. E se o voto electrónico, tanto ao nível de actos eleitorais como de AG’s, está ao nível da descoberta da vacina para o tratamento de uma doença rara, também a diminuição do fosso entre o número de votos entre sócios surge como algo essencial para a entrega do Sporting aos Sportinguistas. Todos.

Dá trabalho? Muito. Dá chatices. Ainda mais. Mas num clube que continua a ser fascinante pela capacidade de, num deserto de títulos, ser capaz de continuar a cativar adeptos entre a infância e a adolescência, torna-se inexplicável ignorar que estas gerações do futuro têm o clube na ponta dos dedos e continuar a dizer-lhes que isto resulta melhor à moda antiga, nem que para isso tenham que fretar-se autocarros para juntar numa Marranita os sócios como mais votos.

Tem tudo para correr mal. Tem tudo para enervar as pessoas. Para fazê-las sentir-se injustiçadas, revoltadas, para aumentar a clivagem entre Sportinguistas à passagem daquele filme batido de que somos todos iguais na altura de pagar a quota, mas não o somos na altura de dizer presente. Até porque, minhas amigas e meus amigos, isto de pagar uma quota e não apoiar o clube num único estádio ou pavilhão tem muito que se lhe diga. Há formas e muitas de contornar tudo isto. Há formas de premiar a longevidade de associativismo que vão além do sentimento de mandar no clube sempre que chega a altura de votar (até porque o Clube existe nos hiatos em que se dá folga à urna).

No coração da solução, os Núcleos, até hoje, na maioria das vezes, um mero local de reunião para uma petiscada enquanto se vê a bola. Informatizá-los, equipá-los, torná-los numa real extensão do clube, em Portugal e no Mundo, mostrando o quão desajustado é esse voto por correspondência numa era da velocidade que se torna proximidade. E tanto que precisamos, todos, de sentir-nos cada vez mais perto do nosso Sporting…

Cherba
Sócio do Sporting Clube de Portugal e dono d'A Tasca do Cherba