À data em que escrevo este artigo, o Sporting Clube de Portugal está fraturado. É meu entendimento que é evidente a má gestão desportiva que ocorre no Sporting Clube de Portugal. Mas para além da péssima performance, especificamente no futebol profissional, o que me apela à emoção e que maior relevância dou é: o estado de desunião.

Quem ainda vai ao futebol, seja por força dos amigos e convívio, a paixão pelo Clube e esperança de ver o Sporting Clube de Portugal ganhar, observa que transversalmente quebrando barreira de idades, estratos sociais, ou posicionamentos políticos, as cada vez mais recorrentes desavenças e exaltações entre consócios. E sendo muito directo, independentemente do credo, brunista, varandista, terceira via, ou o tom mais verde que possam aportar, esta é sim, na minha opinião A Verdadeira Força Destruidora, que esta Direcção, e a Comissão de Gestão antes desta, conseguiram alimentar e instaurar no Clube.

Mesmo ao revés de uma tentativa de normalização das relações com as claques, ou Grupo de Adeptos Organizados, pela Comissão de Gestão, conseguiu esta Direção agravar, ao acicatar ainda mais os ânimos, e a desunião. Seja qual tenha sido o motivo, mesmo o mais relevante de erradicar a violência, o que se demonstrou foi: a total inoperância, fragilidade e incapacidade desta Direção em resolver qual fosse o problema que consideravam existir.

Pior, conseguiram sim, gerar mais ruído, e comportamentos sectários e fracturantes, que promoveram o mau ambiente entre consócios, sem nenhum benefício derivado disto.

Chama-lhe um GOA

Um tema muito discutido na questão dos GOA, são os protocolos dos benefícios e afins. E por bem é necessário antes demais esclarecer o que é um GOA. 

Para tal vamos recorrer à Lei 39/2009, de 30 de Julho, que Estabelece o regime jurídico do combate à violência, ao racismo, à xenofobia e à intolerância nos espectáculos desportivos, de forma a possibilitar a realização dos mesmos com segurança, que recentemente foi alterada pela Lei 113/2019, de 11 de Setembro.

Ora bem, existem pelo menos duas personas com relevância para este texto e que estão bem caracterizadas no Decreto-Lei:

«Grupo organizado de adeptos» o conjunto de adeptos,filiados ou não numa entidade desportiva, tendo por objecto o apoio a clubes, a associações ou a sociedades desportivas; (L30/2009) que atuam de forma concertada, nomeadamente através da utilização de símbolos comuns ou da realização de coreografias e iniciativas de apoio a clubes, associações ou sociedades desportivas, com carácter de permanência (alteração L113/2019)

«Promotor do espectáculo desportivo» as associações de âmbito territorial, clubes e sociedades desportivas, bem como as próprias federações e ligas, quando sejam simultaneamente organizadores de competições desportivas;

A primeira questão logo que pode confundir é: então um GOA não tem de ser filiado do Clube ou da SAD? Não, não tem. A lei como está escrita, mesmo não sendo advogado, permite que tenha a seguinte interpretação: posso não ser sócio do Sporting Clube de Portugal, mas fazendo uso de um cachecol do Sporting, e estando numa moldura humana (vá 30 pessoas juntas a cantar todos os jogos), sou considerado como fazendo parte de um Grupo Organizado de Adeptos.

Só este ponto desmonta uma narrativa: os GOA do Sporting serem obrigados a serem sócios. Não são! Os GOA quiseram incorporar nos seus estatutos de associação a obrigatoriedade de serem os seus membros sócios do Sporting Clube de Portugal. Se foi por força de protocolo ou não, isso é outro tema.

Desmonta também outra ideia: da não responsabilização do Clube ou SAD por GOA não oficiais (registados de acordo com os termos da Lei), pois são entendidos como GOA também. O promotor do espetáculo desportivo, diga-se Clube ou SAD, é responsável pelos GOA, sejam filiados ou não. Assim qualquer desculpa de não reconhecimento ou estarem ilegalizados é uma narrativa de desresponsabilização. 

O estigma que se colocou a Juventude Leonina em particular, e o qual, entre outros termos, é apelidado de escumalha, é no meu entendimento uma forma de gerar uma imagem, uma ideia, ou criar uma narrativa entre os sócios que estes GOA são todos mal comportados, indisciplinados, violentos, traficantes e demais adjetivações negativas. Se parte encarna este perfil que lhes é apontado, e que vem de muito antes da atual Direção, outros não.

The Deal

Existe uma ideia perene e absorvida dentro do sócio do Sporting que os GOA são altamente beneficiados pelos Protocolos, ou mais, existem devido a isso. É de referir que os primeiros protocolos que são públicos datam de 2003, bem antes desta Lei, bem antes de Bruno de Carvalho ou Frederico Varandas. Portanto não é de hoje o apoio, antes pelo contrário, existe uma continuidade das direcções do Clube/SAD de apoio aos GOA. E o Sporting CP não é a excepção. O que mudou foi a Lei. 

Porque se em 2003 já existia Torcida Verde e Juventude Leonina, a essa data há duas décadas, a Lei só surge na primeira versão em...2009.

De acordo com a Lei, apenas os grupos organizados de adeptos constituídos como associações, nos termos da legislação aplicável ou no âmbito do associativismo juvenil, e registados como tal junto do CESD, podem ser objecto de apoio, por parte do promotor do espectáculo desportivo, nomeadamente através da concessão de facilidades de utilização ou cedência de instalações, apoio técnico, financeiro ou material.

O que a Lei veio aportar foi a legalização de uma relação existente entre as claques (agora GOA), que de há muito tempo já tinham com os Clubes ou Sociedades Desportivas. Considerou o legislador, na minha interpretação, que desta forma, utilizando como contrapartida o protocolo, obter o cadastro e disponibilização dos dados registados dos associados (dos GOA), que permitiria controlar e de forma preventiva agir sobre os elementos mais desordeiros. 

Como se refere na Lei: Os apoios técnicos, financeiros e materiais concedidos pelo promotor do espectáculodesportivo a grupos organizados de adeptos são objecto de protocolo, a celebrar em cada época desportiva, o qual é disponibilizado, sempre que solicitado, à força de segurança e ao CESD. Supostamente, todos os GOA não constituídos como Associação, não podem ter qualquer tipo de apoio. 

Legalmente, então, os protocolos têm de existir porquanto existem também apoios concedidos pelos Clubes ou SAD’s. Simples, é de Lei. Mas nestes termos como é e porque são os GOA beneficiados? São-no na medida em que as direcções dos Clubes e SAD assim o entenderem.

Bilhetes

Detalhando um pouco mais, a grande receita, que é apontada por dirigentes ou OCS são os bilhetes. Estes alimentam os GOA.

Sobre estes existem condições sobre as quais se podem ceder bilhetes, para os jogos considerados de risco elevado. Assim a Lei refere: nas competições desportivas de natureza profissional ou não profissional consideradas de risco elevado, sejam nacionais ou internacionais, os promotores do espectáculo desportivonão podem ceder ou vender bilhetes a grupos organizados de adeptos em número superior ao de filiados nesses grupos e identificados no registo referido no n.º 1 do artigo anterior, devendo constar em cada bilhete cedido ou vendido o nome do titular filiado.

Portanto, parece-me complicado, se a Lei for cumprida, que atendendo a que os bilhetes tenham de ser nomeados, ao sócio do Clube e do GOA, e limitado aos associados, que estão cadastrados no GOA, que haja aqui muito dinheiro a ganhar, a não ser que sejam cedidos a título gracioso ou abaixo do PVP, não nomeados.

A realidade de hoje é que os bilhetes são distribuídos pela SAD aos GOA, compreendendo ou não a sua aquisição em bilheteira. Porquê? Porque o Clube ou Sociedade Desportiva pretende objectivamente financiar o GOA.

Números

Recentemente a Juventude Leonina revelou os termos do protocolo proposto pela direcção de Frederico Varandas (Facebook). Analisamos em seguida, focando no futebol:

Nos termos propostos do protocolo eram atribuídos, 720 bilhetes gratuitos por época, para o futebol, e 438 Gamebox Não Nominativas, mais 80 para o staff, para o futebol, sendo as primeiras vendidas a 145€ e as últimas gratuitas. Logo, 720 bilhetes gratuitos por época a 15€ cada bilhete (fazendo uma média) são 10.800€. As 438 Gamebox para os sectores vizinhos dos GOA foram vendidas esta época a 240€, logo 41.610€ é a margem referente a 145€ de 438 GB não nominativa, mais uma benesse para o staff de 19.200€ (80 GB staff). Portanto a SAD, só para o futebol, “ofereceu” 10.800€+41.610€+19.200€=71.610€ ao GOA. 

Partilhando 50% da quotização, se tomarmos todos os sócios da Juve Leo como Juvenis (o que não é verdadeiro), as quotas anuais são 52€. Para 3387 sócios da Juve Leo representa um valor de quotizações de 176.124€, com o protocolo existindo a partilha de 50% de receita com a claque falamos de 88.062€ para a claque.

Portanto, juntando 12.500€ em deslocações, e receitas líquidas de 71.610€ com bilhética e 88.062€ com quotizações, dá no total (excluindo benefícios com modalidades e a proposta de revenda de merchandise na Loja Verde) de receitas directas 172.172€. Números por baixo. Aumentando o valor real das quotas, para efectivos A ou B, o valor cresce bastante. Mas este tema gera efectivamente bastante ruído e dúvidas, muitas dúvidas. Principalmente, se foi de acordo com a Juve Leo o melhor protocolo alguma vez oferecido pelo Clube, onde estão os 300 mil euros de apoio directo do passado?

Hipocrisia

Para mim, considero importante entender o porquê de financiar o GOA. A resposta pode dar azo a muita subjectividade, não tendo números em concreto. Vou tentar ser mais explícito.

Tomo por certo que todos assumem que os GOA, fazem parte do espetáculo que é o futebol, seja como atores nos cânticos que arrepiam, ou na pirotecnia com os fumos, tochas, e com comportamentos e atos que puxam pela equipa dando-lhe ânimo, e que pretendem que ajam de forma coerciva manietando o adversário, mesmo contrariando a Lei, e que a indústria do futebol, e no caso específico o Clube e SAD, usam e abusam como medida de promoção do espetáculo e na forma como o comunica. E de certeza que não pagam royalties aos GOA por uso da sua imagem...

Portanto, se por um lado é condenado o comportamento, por outro, é promovido, seja na televisão, no marketing ou na comunicação do espetáculo futebol, promovendo uma aura emocional clubística.

A criação desses ambientes de atracção emocional no futebol tem um custo, que à data os Clubes e SAD financiam, quando é do seu interesse. Por outras palavras, faz-se outsourcing de marketing e comunicação one to many, promovendo a mística e o ambiente do estádio, fazendo uso do recurso GOA. 

Assim existe uma enorme hipocrisia sobre o tema do financiamento do GOA, pois se os números dos protocolos facilmente aparecem, os números do espetáculo de futebol, já são de menor percepção, mas de maior impacto nas receitas dos Clubes e SAD. 

Pergunto: quanto é valorado o GOA em termos de contribuição em receita para o espetáculo de futebol? Dava um estudo...

O que 120 mil euros de multa por utilização de pirotécnica se correlaciona com as milhares de fotografias e publicidade de partilha de marca e promoção de eventos de futebol nas redes sociais e oficiais, gratuitamente, e de que forma impacta em receitas negativamente ou positivamente? Qual é o impacto na atração de adeptos mais jovens e angariação de moldura humana para assistir ao espectáculo desportivo? E na dinâmica motivacional das equipas, qual é o verdadeiro impacto de uma moldura humana forte e coesa de apoio, e a ausência dela? 

Se percebermos quais são os custos creio que o impacto dos proveitos não esteja à data bem explícito e apresentado às claras. Portanto existiu e existe interesse de financiar os grupos, agora associações, porque a percepção global é que a sua existência potência as receitas e atracção ao espetáculo desportivo. Caso contrário não o fariam. E acrescento, o caso latino é diferente do contexto Inglês. Aqui a cultura tem o seu impacto.

Guerra?

Não é claro o processo crescente de agravo que conduziu às recentes ações da direcção do Clube e da SAD de hostilização das claques (e destas à direcção), e que passaram de ações seletivas de corte de benefícios, para um processo não seletivo como o exemplo das revistas na Porta 5, que não me permitem entender o real motivo da guerra

Os eventos de violência sempre reprováveis, desde há uns bons anos para cá, têm sido reduzidos. A violência de grande amplitude nas bancadas é pouco frequente, e ainda bem, e a Lei ajudou nesta questão. Portanto o que é abordado como motivos de ruptura: as críticas à direcção vigente e o uso de pirotecnia com dano sobre as infraestruturas desportivas ou integridade física de terceiros. Nada de novo, portanto.

Creio no entanto que as acções à data são extemporâneas pois não agem sobre aquele que é o grande tema (no meu ponto de vista): responsabilização individual do adepto.

O Clube e a SAD devem assumir as suas responsabilidades e agir objetivamente, e de acordo com a Lei, responsabilizando individualmente prevaricadores e agindo sobre eles. Estas responsabilidades traduzem-se em acções preventivas e coercivas bem estipuladas na Lei. A responsabilidade individual dos adeptos assim como as suas sentenças, multa e prisão ou impedimento de acesso a espetáculos desportivos estão bem definidas e enquadradas na Lei. Pode ser considerado que as mesmas não são duras, mas existem, e publicamente não vejo a sua implementação prática.

Implementação que é distinta, por exemplo, das ações de corte de protocolos ou revista inusitada de adeptos, que partilhando acesso com os GOA a mesma porta de acesso ao estádio são revistados de forma intrusiva. São um grupo de risco?

As revistas seriam evitáveis caso o Clube ou SAD desse uma indicação direta de identificação de adeptos prevaricadores, que fossem no imediato impedidos de aceder às instalações desportivas do Clube e se fosse o caso expulsos de sócio. Para além do mais, e voltando a referir, as instalações de estádio e pavilhão têm sistemas de videovigilância, são gastos milhões em ARD’s e policiamento, e portanto, são investimentos substanciais, que têm de ter um efeito prático. Isto é aplicável a qualquer adepto, GOA ou não.

Caso as ações de identificação de adeptos, seu impedimento de ir ao estádio, forem praticadas, a sua publicitação é elemento dissuasor para os demais adeptos. Muito mais eficiente que revistas de pé descalço que geram obviamente desconforto, apreensão e revolta em todos aqueles que partilhando acesso com os GOA na Porta 5 ficam sujeitos, sem justificação nenhuma. E não, não podemos tomar a parte pelo todo.

Que a administração da SAD e do Clube entenda: as medidas de revista tornam o espetáculo menos atrativo. Estas medidas afastam adeptos e suas famílias. Estas medidas não conduzam a um sentimento de segurança por quem é alvo delas e que na maioria não compreende a razoabilidade das mesmas. Eu não compreendo.

E não compreendo quando não vejo acções. Identificaram no jogo com o Benfica adeptos. Qual a consequência prática? E em outros clubes e SAD’s? Quais as consequências práticas?

Concluíndo

A minha maior preocupação é estarmos num processo de espiral, contínua, de rotura e fragmentação, criando casos, ao invés de procurar integrar, cuidar e fazer crescer o maior património que um Clube pode ter que são os seus sócios e adeptos.

Existe à data um constante rebuliço de atirar responsabilidades para os outros, e forjar processos inquisitivos, projetando posicionamentos de força assentes em parte no desconhecimento dos adeptos, no ruído que os grandes títulos dos jornais e na vara de comentadores desportivos que se alimentam destes episódios recorrentes na história do nosso Clube.

Confundimos a árvore com a floresta. Agimos selectivamente sobre grupos, e não sobre indivíduos. E está-se perante acções de afastamento dos adeptos, que sem eles não existe SAD ou Clube. É preciso coragem? Até agora as opções tomadas seguem sempre a via mais fácil e mais polémica, escondendo as verdadeiras fragilidades.

Tiago Carvalho
Business Developer
Sócio do Sporting Clube de Portugal