A introdução das novas tecnologias na vida associativa dos clubes não deve ser encarada como a solução de todos os problemas, mas sim, como mais um instrumento que permita a maior eficácia no objetivo final: uma maior participação dos sócios e maior equidade em todas as decisões. O Sporting é um Clube de Portugal e as novas tecnologias permitem “diminuir” as distâncias. Por outro lado, a participação ativa, solidária e presencial demonstra e comprova muitas vezes a paixão que não é possível apenas à distancia de um “click” e isso deverá servir como discriminação positiva e valorizável.

Na Medicina, a introdução das novas tecnologias alterou de forma irreversível a forma como todos a encaramos atualmente, mas também a relação médico-doente que sempre foi o “pilar” nos cuidados de saúde. Ou seja, apesar dos avanços e das vantagens manifestas que todos nós conhecemos dessa evolução também existiram aspectos francamente negativos que deterioraram de forma manifesta e relevante a Medicina convencional/antiga. A relação Médico-doente, o toque, a atenção, ou seja a relação individual, personalizada e humana, sofreu um sério revés “apenas” pela presença de um monitor a funcionar como “intermediário” e centro de todas as atenções. As consultas por videoconferência são uma realidade e ajudam inequivocamente as populações mais afastadas dos cuidados de saúde necessários, mas não podem nunca substituir a consulta médica presencial. Ganhámos outras coisas, sem dúvida: a rapidez, o controlo, a eficácia e a casuística. Permitiu que estivéssemos a par de todas as novidades e sempre “upgrade” com o Mundo, seja na China, no Bangladesh ou nos EUA.

Transpondo isto para a vida activa do nosso clube e não sendo eu expert ou entendido nas questões do direito desportivo e/ou associativo relacionadas com as AG, Eleições, Contas e Orçamentos parece-me que teremos que ser cuidadosos e atentos na introdução das novas tecnologias, extraindo as suas vantagens e tentando minimizar os seus efeitos deletérios. Teremos, pois, que ser cuidadosos nas questões das novas tecnologias, nomeadamente no voto electrónico, por um lado as vantagens são imensas e evidentes, mas por outro lado apesar de diminuirmos as taxas de abstenção e aumentar a credibilidades das votações poderá também introduzir uma distância acrescida entre os sócios e o clube diminuído a sua participação activa e presencial na vida do Sporting. Como em tudo na vida no meio é que está a virtude e uma mistura de novas tecnologias com o associativismo clássico será com certeza a solução.

A dimensão das nossas assembleias, em que apesar do orgulho que todos sentimos em sermos o clube Português sempre com maior e mais vibrante participação dos sócios nas diferentes votações, demonstra muitas vezes o seu carácter fraturante e divisionista com todas as consequências por demais evidentes. Assim, os “referendos” e a auscultação frequente e regular dos sócios, para assuntos correntes, mas importantes, poderá ser uma das soluções acrescidas que as novas tecnologias podem permitir. Os referendos, em Países mais desenvolvidos que o nosso, traduzem uma efectiva participação frequente, regular, mas civilizada e consciente em muitos temas e problemas contemporâneos não deixando que apenas as eleições de 4 em 4 anos resolvam todos os problemas que se vão acumulando sem decisões colegiais, resultando dessa falta de auscultação, conflitos e divisionismos desnecessários.

Dedicar tempo ao nosso clube faz parte da nossa paixão e do nosso associativismo, mas obviamente tem que ser compatível com o frenesim da vida moderna e com as distâncias de um Clube verdadeiramente nacional, mas quem não têm tempo para o nosso clube também não pode ter muita paixão, porque quando somos verdadeiramente apaixonados, por algo ou por alguém, o tempo nunca nos falta.

Jacob Frischknecht
Sócio desde 1979 – nº 7935-1
Médico Especialista de Ortopedia e Medicina Desportiva
Médico da Federação Portuguesa de Judo
Médico da Sporting SAD de 2006 a 2011
Médico do COP aos Jogos Olímpicos de Pequim 2008