Como já referi em artigo anterior, expressei porque não devemos tomar o todo pela parte e debrucei-me sobre o tema dos GOA, tentando enquadrar a Lei, e fazendo uma crítica à atual forma como a direcção do Sporting Clube de Portugal está a lidar com este tema.

Espoleta a redação deste artigo uma recente notícia do Expresso que aborda o tema do racismo e especificamente as acções que o Ministério Público está a tomar em conjunto com a PSP criando uma unidade especial que pretende ganhar experiência na aplicação da recente Lei 113/2019, que abordei em parte anteriormente.

Neste particular uma das questões abordadas é a dificuldade de identificar adeptos, por uso de referencial fotográfico e a extracção de fotogramas provenientes do sistema de videovigilância, não possibilita identificar a diferença do que é um insulto racista do que é um insulto ao árbitro.

Bem sobre o tema dos insultos num contexto de futebol, nada vou abordar. Vou sim abordar o tema de identificação de adeptos que tendo sido expulso de recintos desportivos ou tendo sido assinalados por comportamentos violentos ou contra a Lei, continuam a entrar nos recintos desportivos.

A questão do meu ponto de vista está relacionado com a eficiência. Eficiência e a capacidade de identificação em tempo-real, na entrada no estádio destes indivíduos. Sobre isto, dado o atraso tecnológico que figura na fraca Liga NOS, não é de todo um espanto que não se adopte mecanismos que a tecnologia à data de hoje consegue implementar, mesmo que com algumas limitações.

Bem, vamos falar de Inteligência Artificial e Machine Learning. De forma introdutória, e de modo a não pensarmos que estamos a falar de ciência de foguetões, esta tecnologia já é aplicada quando carregamos fotos para o Google Photos ou para a app de fotografias da Apple, quando identificamos caras. É verdade. Nós no uso comum da tecnologia já ensinamos a Google e a Apple a identificar os nossos familiares e amigos, numa fotografia.

Pois bem, lá fora (sempre lá fora…), os Clubes já utilizam a Inteligência Artificial e especificamente o Machine Learning, para identificarem os adeptos violentos ou que estão impedidos de entrar em estádios, por forma a evitarem altercações e serem eficientes na implementação das medidas legais. Em suma, o que estou aqui a abordar, é implementar tecnologia para maior eficiência e segurança no espetáculo desportivo.

Acrescento mais: a implementação destas tecnologias evitam os anormais processos de revista, que à data de hoje se têm vindo a realizar sobre a insígnia de impedir a entrada de artefactos pirotécnicos no estádio. Se um adepto não está sinalizado porque tem de ser sujeito a uma revista daquelas?

AI e ML

De forma muito simplista a Inteligência Artificial compreende capacitar um computador (ou grupo de) para criar processos cognitivos humanos, utilizando algoritmos, que simulam a interpretação, a análise, a interacção e a expressão, esta última de forma muito limitada. Tende também como objectivo a criação de novos racionais, e capacidade de apreender. E sobre este último tema, a aprendizagem, entra o conceito da aprendizagem pelas máquinas, pelo Machine Learning.

Como disse antes isto não é algo de novo. Já existe na tecnologia focada no consumidor, dei o exemplo da Google e da Apple, estando à data de hoje ampliada em soluções específicas de Visual Recognition, isto é, reconhecimento de pessoas e objectos através de algoritmos de aprendizagem.

Dentro do campo do Machine Learning, é o Deep Learning, que está mais focado na interpretação das imagens, utilizando algoritmos específicos para tal. A figura abaixo é retirada de um artigo, que para quem tenha interesse, explica em maior detalhe estes conceitos, mas com razoabilidade suficiente para leigos sobre como estes algoritmos podem reduzir significativamente o erro na interpretação de objectos. Podem consultar aqui: https://www.mckinsey.com/business-functions/mckinsey-analytics/our-insights/an-executives-guide-to-ai?cid=soc-app

Portanto, estes algoritmos já são à data de hoje aplicados, e com sucesso, em diferentes indústrias, tendo como objectivo a promoção da segurança de colaboradores e de operações. Vamos analisar especificamente no futebol.

Casos de Uso no futebol

São vários os casos de uso já existentes no futebol. Basta ir a um motor de busca e surgem vários exemplos. Desde o Bayern de Munique a aplicar AI para identificação de objectos que perigam o evento, nas bancadas, como a aplicação no reconhecimento facial de adeptos impedindo o acesso ao estádio. Focando nestes últimos casos:

O exemplo que vos quero falar é do Brondby. Este clube da Dinamarca implementou um sistema de reconhecimento facial de modo a evitar que adeptos identificados possam aceder ao estádio. Na linha de entrada é pedido aos adeptos que tirem capuzes, chapéus e óculos e são comparadas as caras com as de 50 adeptos referenciados por comportamentos violentos. Se qualquer um destes 50 é identificado, é obrigatoriamente entregue à polícia, que procede à sua identificação e impede o acesso ao estádio. Podem ler mais aqui: https://www.npr.org/2019/10/21/770280447/a-soccer-team-in-denmark-is-using-facial-recognition-to-stop-unruly-fans?t=1582631316232.

O sistema que foi desenvolvido pela PANASONIC, é descrito neste artigo https://www.securityinformed.com/news/panasonic-security-solution-enhances-football-fan-co-1277-ga.1579873113.html, resumindo de uma forma simplista, relaciona câmaras de captação de imagem com algoritmos de reconhecimento facial, em tempo-real.

Estes sistemas têm vindo a ser implementados, de acordo com os casos de utilização públicos, sobretudo na Holanda e Alemanha, onde existem casos severos de violência no futebol.

Claramente existem vários benefícios na implementação destas tecnologias:

  • A redução de revistas e de processos de controlo de acessos mais demorados que provocam animosidade nos adeptos, seja pela demora na entrada ou por estarem sujeitos a situações de humilhação.
  • A eficiência, que embora o investimento necessário para as câmaras de videovigilância e algoritmo (e computação necessária) seja obviamente elevado, permite ganhos na redução de ARD’s e de policias afectos ao evento desportivo.
  • A eficiência sobre a forma de qualidade no reconhecimento, tendo o modelo sido treinado o suficiente, permitirá a redução dos falsos positivos, e por outro impedir o acesso aos adeptos assinalados, de modo mais preciso.

Portanto, não tendo a noção de custos, deduzo que o retorno de investimento face aos gastos atuais das medidas implementadas pela direcção sejam reduzidos no médio prazo. E com menos mossa no relacionamento com os adeptos.

Nem tudo é um mar de rosas…

No entanto é importante perceber que o Regime Geral de Protecção de Dados obriga a que a autoridade competente permita a utilização do sistema. Por outro lado, a interpretação subjectiva do adepto sobre a utilização do mesmo também é um tema a ser gerido.

Creio que o RGPD é um garante da utilização adequada deste tipo de tecnologia. Isto é, a supervisão de utilização pelas forças de segurança permitirá que esta tecnologia seja utilizada para o propósito para que foi implementada e não outro qualquer desiderato terceiro. O exemplo acima aborda esta temática, a da proteção da privacidade individual, e do balanço entre os benefícios e as dúvidas que coloca na sua utilização.

Não obstante as dúvidas que possam existir, à data de hoje já existe um sistema de videovigilância implementado, sendo que concluo que a implementação de reconhecimento facial é um upgrade, um ampliar, do espectro da utilização das atuais imagens que são recolhidas.

Atendendo à supervisão das autoridades e considerando que a sua implementação é aceite pela autoridade de protecção de dados, surge outro obstáculo: obsolescência tecnológica do Clube.  

Quase ciclicamente voltamos a cair no contexto da infraestrutura tecnológica pobre do Clube, quando falamos de sistemas ou inovações digitais. Sim, para a existência destes sistemas é necessário infraestrutura tecnológica que à data de hoje não existe. E mais do que a Lei, este é um severo obstáculo à implementação deste ou de qualquer outro sistema digital no estádio.

Resumindo creio que a redução dos polémicos processos de revista, por um lado, e a promoção da segurança de todos, por outro, são benefícios suficientes para a implementação de soluções deste tipo. Os benefícios na minha opinião superam largamente dúvidas que se possam colocar.

Uma dúvida que tenho: se existe uma transformação digital desde Setembro de 2019, assim foi dito, acrescentando investimentos de milhões (de acordo com a Direcção do Clube), estão este tipo de sistemas a serem contemplados? Pois bem, este é outro passo para a modernidade, no meu entendimento.