Para quem não me conhece sou Sócio de Categoria A número 9.575-0 e sou-o desde agosto de 1981. Tenho agora 43 anos, tenho 9 votos e para o próximo ano passarei a ter 10 votos. Ora, em agosto de 1981 tinha apenas 5 anos. Sou Sócio porque o meu falecido Pai assim o decidiu, e em boa hora que o fez. Foi sem dúvida uma das melhores decisões que tomou na sua vida.

Estávamos em 1981, demorava-se cerca de 6 a 8 horas para fazer de carro do Porto (onde nasci e morei até aos 23 anos) até Lisboa, por uma estrada nacional 1, que passava pelo meio de terras e terrinhas.

Ir a Lisboa era um momento especial na minha infância, eram as férias, era ir à praia da Baía de Cascais ou à "praia pequenina" aquela praia junto ao Farol, era ir ao Jardim Zoológico, e mais importante de tudo era "ir ao Sporting". Terá sido numa dessas idas, talvez para ver um jogo do Torneio Internacional de Lisboa - que é uma das primeiras memórias que tenho de ver um jogo no José Alvalade, contra o Atlético de Madrid onde jogava o Hugo Sanchez - ou da Taça de Honra da Associação de Futebol de Lisboa, que o meu Pai terá ido à Secretaria, que se bem me lembro era na Porta 6A, e terá feito a minha inscrição de Sócio.

Não consigo precisar, pois era muito pequeno, e infelizmente quem poderia contar a história já não está entre nós há muitos anos, mas era ele também um Sócio do Sporting, que aproveitou umas férias anteriores a estas de 1981, para fazer o mesmo longo caminho, num dia quente de agosto e fazer-se a ele próprio de Sócio.

A partir desse momento lembro-me bem de que sempre que me perguntavam de que clube era eu dizia: "Sou do Sporting e sou Sócio". Dizia-o com orgulho de quem tinha Manuel Fernandes e Jordão, Baganha e Carlos Lisboa, Carlos Lopes e Fernando Mamede, Carlos Silva e Bessone Basto, Livramento e Chana, ou o grande Joaquim Agostinho e tantos outros na sua história.

Quem passou a fazer parte da nossa vida foi o Cobrador que ia lá a casa tocar à campainha para que as quotas fossem pagas. Havia sempre umas notinhas de 20, 50 ou 100 escudos para que se alguém fosse cobrar alguma coisa lá a casa não regressasse de mãos a abanar. Estávamos no tempo pré-multibanco e referências bancárias. É incrível a transformação que o mundo teve em tão "pouco" tempo.

Conto esta história, para que haja um enquadramento do explanar das minhas ideias. Ajudar a que haja um contraditório comigo próprio. Ajudar quem me lê a ver o outro lado de mente aberta, assistindo às razões que possam existir ao "outro lado".

Considero-me um Democrata, todos conhecem a minha intervenção ativa, para que nas últimas eleições todos os Sócios, que assim o desejassem, pudessem concorrer às mesmas de uma forma livre, sem jogadas de secretaria. E como Democrata que penso ser, redobro a minha atenção, quando ouço que "quem é Sócio há 1 ano deve ter o mesmo número de votos que alguém que é Sócio há 20, 30, 40, 50 anos" para ouvir atentamente a argumentação que tal justifique.

A argumentação normalmente anda pela comparação com os direitos de voto que se tem num estado de democracia liberal, em que cada cidadão tem direito a um voto independentemente da idade, ou do que paga de impostos, ou de qualquer outra característica social, religiosa, étnica e por aí fora.

Só que há uma questão muito importante que separa o que é uma Associação Desportiva, como é o Sporting Clube de Portugal, ou outra qualquer associação, do que é uma República ou mesmo uma Monarquia constitucional democrática. Essa diferença é tão só que numa democracia liberal qualquer cidadão "ganha" o direito de voto à nascença, pelo simples facto de ter nascido. Não envolve esforço nenhum. Não houve uma opção algures tomada. É um direito adquirido e inalienável. É sim, porque sim. Chega-se aos 18 anos e já está, pode-se ir votar. Foi assim comigo. Só não terá sido assim para quem me lê e atingiu os 18 anos antes de 1974.

Vamos agora recordar a minha história particular. Nasci no Porto, o meu Pai mesmo sendo Sportinguista poderia, num perfeito ato de insanidade, ter-me feito Sócio do FCP, bastaria ter apanhado o autocarro 21, ou o 78, e passadas 6 paragens estaria nas Antas. Podia ter-me falado dos feitos do Fernando Gomes em vez dos feitos do Jordão. Eu poderia ter cedido à pressão, de quase todos os meus colegas serem portistas, de ter nascido numa cidade azul e branca da pontinha dos pés até à ponta dos cabelos, de ver o crescimento do "clube da cidade". Mas não: fez a minha família e fiz eu uma opção. Consciente ou inconscientemente ela foi feita, implicou um esforço, um expressar de vontade, sem sequer pensar em retirar proveito material dessa filiação, pois ver jogos no José Alvalade era raríssimo, dada a distância e as condições que havia nos idos anos 80 e princípios dos anos 90. Era uma questão identitária, sentimental, de orgulho… de amor.

Então deixo uma pergunta, depois do que expus a comparação entre uma Associação e um País continua a fazer sentido em toda as suas características, ou existem particularidades que fazem das Associações democracias com características especiais?

Chegados a este ponto do meu texto, e dada a pergunta feita acima, poderão pensar que em minha opinião está tudo bem como está, e "assim é que está bem". Mas não, não acho que esteja tudo bem. Em minha opinião, há muitas imperfeições, no atual sistema, que habitualmente circunscrevem à questão de "1 Sócio, 1 Voto", de forma muito redutora nesta questão dos votos por antiguidade. A maior das imperfeições, nem costuma ser falada e parece-me a maior de todas! A diferença dos votos do Efetivo A, para o Efetivo B, para o Efetivo C. Esta segregação não me parece que faça sentido ao nível de votos. E passo a explicar o porquê.

Ao não pagarem a quota base, os Efetivos B já não têm os mesmos benefícios que os Efetivos A ao nível de poder assistir aos jogos na bancada A, tendo por isso que ir obrigatoriamente para a bancada B. Ou outro exemplo: não se podem candidatar a Órgãos Sociais, o que é discutível também, mas daí a não terem o mesmo número de votos parece-me de uma injustiça terrível e injustificável!

Então um Sócio de 30 anos de filiação, por ser Efetivo B, tem os mesmos votos de quem tem 10 anos de Efetivo A? Então o sistema já não é por antiguidade? Então é uma coisa híbrida? Mas, se acham que ficamos por aqui, preparem-se, pois a coisa piora quando vamos para os Sócios Efetivos C.

Os Sócios Efetivos C são os antigos Sócios Correspondentes, ou seja, os Sócios que o eram, mas estavam distantes de Lisboa. É o caso da minha Mãe. É Sócia desde 1985 e tem apenas 3 votos. Leu bem 3 votos. É Sócia há 35 anos e tem o mesmo número de votos que alguém que é Sócio Efetivo A há 5 anos. Uma tremenda injustiça. Nada justifica esta segregação entre Sócios. Que premiação de fidelidade é esta? Até onde pode chegar a desconsideração por quem sofre longe de Lisboa?

À diferenciação por Antiguidade eu consigo ser sensível, quer à argumentação quer à justificação para tal acontecer, agora esta diferenciação por categoria, para as categorias atuais existentes é completamente maquiavélica que nem ao próprio Nicolau lembraria de zurzir tal emaranhado complexo nos Estatutos. Aliás juntar Maquiavel e Kafka a redigir os nossos Estatutos teria um resultado bem mais simplificado que o atual texto… quer-me parecer.

Por outro lado, há características mais favoráveis nos nossos Estatutos que nas Leis da República que tornam o nosso Clube mais "liberal" que a nossa Democracia. Por exemplo pode-se ser Presidente do Conselho Diretivo ao fim de 5 anos de Sócio e logo com 18 anos. Já para ser candidato a Presidente da República é preciso atingir os 35 anos de vida – que é o mesmo que dizer de Sócio da Nação – para poder candidatar-se.

Também para se ter direito ao voto na nossa República é preciso esperar 18 anos. Já no nosso Clube varia entre 12 meses para o Efetivo A e os 48 meses para o Efetivo C, passando pelos 24 meses para o Efetivo B. Outra discriminação incompreensível que urge acabar.

Depois de ter tentado expor a reflexão que tenho feito ao longo de anos, acerca deste tema tão fraturante, passo a elencar as ideias chave de ação, passos necessários para a simplificação, justiça, equidade, modernidade, atração de mais Sócios, logo, para um futuro melhor para o nosso Clube:

  1. Acabar com a discriminação de votos entre as diversas categorias de Sócios Efetivos
  2. Uniformizar todos os direitos estatutários entre estas categorias de Sócios Efetivos – a diferenciação far-se-ia exclusivamente pelos benefícios dentro da coletividade, como o acesso a bilhetes, descontos nos produtos e serviços de clube, acesso a bancadas e gamebox, etc
  3. Aumentar o tempo em que se tem de ser Sócio, de forma ininterrupta, para ter capacidade eleitoral ativa, ou seja, para poder votar tem que esperar um mandato e.g. quem se fez Sócio após a última eleição só ganhará direito a voto após a eleição seguinte, o que implica um mínimo de 4 anos de fidelidade Leonina;
  4. Aumentar o tempo em que se tem de ser Sócio, de forma ininterrupta, para ter capacidade eleitoral passiva, ou seja, quem se queira candidatar a Presidente de um Orgão Social tem que ser Sócio há mais de 18 anos, de forma a atingir a maioridade Leonina.
  5. Premiar todos os Sócios Efetivos que permaneçam Sócios mais que 1 mandato, atribuindo 10 votos no momento em que adquirem os direitos de voto, pois é sabido que há uma grande desistência de Sócios ao terceiro ano, e esta seria a forma de fidelizar todos os resistentes.
  6. Manter 1 voto adicional a cada 5 anos, a somar aos 10 iniciais, mas como referido no ponto 1 com a regra a ser aplicada a todos os Sócios Efetivos independentemente da categoria onde se enquadrem.

Esta parece-me ser uma proposta equilibrada que responde aos receios de "uns", e aos anseios de "outros", mas que tenho a certeza faria justiça a "muitos" que dizem como "este" miúdo nascido no Porto dizia "Sou do Sporting e sou Sócio".

Nuno Sousa
Sócio 9.575-0 desde agosto de 1981
Licenciado em Gestão pela Universidade Católica