Sempre que penso no porquê de existirem sócios do Sporting cujo voto vale mais do que o meu, não encontro explicação. E sempre que coloco a pergunta à procura da mesma, a resposta é, invariavelmente, porque é sócio há mais anos do que tu.

Mas o que é isso de ser-se sócio há mais anos? Porque é que o pagamento de uma quota confere a quem despende mensalmente um determinado valor, o poder de ter maior influência decisória no destino do Clube? Porque é que "o Sporting somos nós", mas acaba por ser mais de uns do que de outros quando os sócios são chamados a manifestar-se?

Que fique claro: considero a antiguidade fundamental na não menos incontornável evolução e continuidade do Sportinguismo. Há uma incontável riqueza neste coleccionar de vivências com mais ou menos rugas. E choca-me que quem está à frente dos destinos de uma tão grande instituição, apenas se lembre destes associados quando chega a altura de os colocar num autocarro para virem a Lisboa almoçar, votar e, quem sabe, pelo caminho, ainda comprar com condições de Leão um serviço de mesa que reforça os seus anos de fidelidade.

Desculpem, mas não! Está tudo errado. Está tudo invertido. E basta colocar uma pergunta simples para ouvir o encantador som dos grilos: que percentagem da comunicação institucional e do maketing é dirigida a sócios com mais de 55 anos? Exacto.

E sabem que mais? Este vazio só amplia a clivagem entre as gerações. Se a força dos tempos obriga a que grande parte da comunicação seja pensada para quem tem a ponta dos dedos transformada num ecrã táctil, como é que, chegado o momento da verdade, dizemos a quem desafiamos que seja consumidor ávido e militante incontornável que essa sua predisposição tem menos valor quando comparada com a de outro sócio?

Numa era onde a tecnologia impera e há-de fazer-nos crescer enquanto clube, vai sendo tempo de equilibrar as coisas. Vai sendo tempo de valorizar não apenas os anos de associativismo, mas o que fazemos com ele. O premiar da longevidade dessa ligação tem que ir muito além do sentimento de ter maior poder nas urnas. O premiar da longevidade dessa ligação tem que ser canalizado para aproximar mais e mais o clube dos sócios, com momentos de significância e de reconhecimento não só para quem paga a quota como para a sua família.

Tendo nascido em Lisboa, tive a sorte de estar perto de Alvalade e de experienciar coisas como a antiga sala dos sócios, cheia de gente com idade para ser meu avô e para me contar histórias leoninas de arregalar os olhos. Mas acham que eu lá fiquei muito tempo? Acham que eu pedi para ouvir histórias? Acham que alguém se deu ao trabalho de criar uma ponte ali, naquela sala?

É uma imagem que guardo comigo e que várias vezes me vem à memória quando penso que sou pai de uma menina que, ao contrário de mim e porque a conjuntura assim o permitiu, foi feita sócia ainda sem saber o que era o Sporting. E, imagine-se, agora que vos escrevo estas linhas, recordo-me que eu optei por abdicar do período de carência do pagamento de quotas porque me disseram que, pagando-as, esse tempo de associado começava a ser contabilizado para... vocês sabem para quê.

Curiosamente, não houve a preocupação de saber se eu fazia tensões de levar a minha filha ao estádio e, mais tarde, ao pavilhão. Não houve a preocupação de olhar para o meu percurso enquanto sócio. Não houve a preocupação de pensar em alguma forma agradecer e assinalar o estar a trazer um novo membro.

E sabem o que é mais curioso? À luz do que acontece actualmente, nessa sala de sócios que já não existe, ela, com menos 32 anos do que eu, poderá um dia ter mais votos do que eu. E esse poder não lhe é conferido pelo facto de, sentada nas bancadas um pouco espalhadas por todo o país, ela já gritar mais pelo Sporting do que eu. Antes, pela longevidade de uma quota que não está nem aí para as vezes que gritaste ao longo dos anos que a pagaste.

Cherba
Sócio do Sporting Clube de Portugal e dono d'A Tasca do Cherba