Corria o Verão em Lisboa nos anos 90. De casaco de ganga, atado à cintura mas sempre pronto para ser usado quando corria uma brisa. De ténis (sempre!), óculos redondos e aparelho amovível. O cabelo loiro, olhos azuis e as faces rosadas não deixavam desconfiar que viria do Alentejo, mesmo ali encostado ao mar. Num pulso um relógio colorido com mostrador digital, daqueles que dizia o reclame aguentava 1 metro debaixo de água, mas que bastava uma pinga enquanto se lavava as mãos para ficar com água no mostrador.

No outro pulso, bem apertado, apesar do calor que se vivia, um cachecol em tons verde e branco, com o símbolo do rampante a amarelo. Na carteira de velcro com corações acabava de guardar o mais recente tesouro, um cartão de sócio juvenil do Sporting Clube de Portugal.

A azáfama era muita, era dia de jogo, um dos primeiros do campeonato, se a memória não me engana. A pele meio arrepiada, o coração latejante enquanto subia os degraus. Bum.. bum.. bum.. ribombava com estrondo, o som dos saltos da claque e do tambor. Ainda fico com um aperto na garganta ao recordar a primeira vez que vi o relvado, envolto pelo laranja da pista tartan.

Ficámos na curva sul, bem encostados à rede. Fiquei mais de metade do jogo, ali, de boca aberta a aprender cada música... a outra metade, por entre a rede, à procura do meu herói, que imitava nos jogos da rua e da escola, o Juskowiak...

E foi ali, foi ali que conheci o meu primeiro amor, o Sporting Clube de Portugal!

Até então tinha sido sempre uma paixão assolapada, altamente platónica, daquelas em que se escreve mil vezes o nome dele dentro de corações nos cadernos da escola, mas que ele nem sequer sonha que nós existimos.  Estamos sempre à procura dele no recreio, e nos deixamos estar ali onde sabemos que vai passar, só para conseguirmos saber qual o seu perfume. Até que um dia descobrimos que ele sabe o teu nome.

Pela mão do meu pai, sob o olhar protetor da minha mãe, aos saltos com o meu irmão, apaixonei-me ainda mais!

A partir daqui já não dava para voltar atrás. São as borboletas na barriga, o nervoso miudinho, o orgulho que é tão grande que parece querer saltar do peito. É assim o primeiro amor, aparecerão outros, sempre diferentes, mas que nunca ocuparão o mesmo lugar.

Muitos que me leem, acharão que isto é coisa de miúda, mas aqueles que conhecem este primeiro amor, certamente me entenderão. A primeira vez que vemos a verde e branca, de leão bordado ao peito, em cima do relvado, quase sentimos que o nosso coração falhou um batimento. Ser de um clube, e ser do Sporting é uma história de amor, é muito mais do que ter um cartão de sócio, uma camisola, uma ida ao estádio, um jogo, é um sentimento que se cola à pele, que se entrelaça na alma e que passa a ser parte do que somos.

Muitos dirão que enlouquecemos, que a paixão tolda a razão, e muitas vezes assim é, mas também é a paixão que nos move e faz tomar a dianteira de voar atrás do sonho. Foi a mesma paixão de antigamente que me fez subir várias vezes todos aqueles degraus, anos mais tarde, muito grávida para ir ver os jogos em casa no meu lugar. Chegava sempre ofegante, depois de tanta escada, com peso extra, de mão na barriga, já em cima do apito, só para ficar ali a sentir a minha filha a escutar “O mundo sabe que”, e a sentir que me apaixonava de novo.  Com a secreta esperança de que a minha paixão tocasse no seu pequeno coração e já tivesse começado, ali dentro de mim.

Nos anos 90, futebol não era coisa de miúdas. Não sabíamos ver, nem percebíamos foras de jogo, nem a tática, nem a técnica, e sei lá que mais, diziam-me.… e eu ali, pouco convencida, a sonhar em calçar as meias listadas de verde e branco, bem puxadas até ao joelho!

Cresci, sempre com o desejo de poder jogar, para tornar-me a Balakov da rua, e ser igual, aos rapazes da escola, ir treinar com os amigos a dar uns chutos na redondinha.

Mas futebol não é coisa de miúdas, lá me convencia eu...

Lembro-me de subir a escadaria de acesso ao interior do estádio, numa das vezes por época que vínhamos aos jogos, e apenas existir uma casa de banho para mulheres em cada bancada, porque o futebol não é coisa de miúdas...

Com o passar dos dias, descobri que me mentiam. Não existem “coisas de miúdas”, mas sim coisas que nos apaixonam!

Decidi que as minhas filhas poderão escolher qualquer profissão, ou hobbie, independentemente das conotações sociais que possam ter. Parte de ser mulher, é ter que aprender a lidar com a masculinização do mundo, enfrentar mais obstáculos, fintar quem nos diz que não podemos ou que não devemos desafiar. É arregaçar as mangas, traçar o caminho e correr rumo ao que queremos para os nossos, como fazem as leoas na savana.

O desporto feminino está em ascensão, as ligas são cada vez mais competitivas, com mais público, e englobam cada vez mais interesse financeiro, é o que nos dizem os estudos. Graças a elas, que não desistiram de correr atrás da bola, de ficar até às tantas a jogar na rua, até a bola ir parar em cima do telhado ou os ténis se romperem com o uso.

Graças aos pais que lhes puseram as mãos nos ombros e as consolaram quando caiam e os outros lhes diziam que não podiam, pois era coisas de miúdas.

A palavra atleta não tem género, tal como não tem a palavra sportinguista.

O clube do leão rampante é ter orgulho, luta, raça e vontade. É entrar no estádio e apaixonarmo-nos como na primeira vez...

E agora, meu primeiro grande amor, quando podemos deixar as nossas miúdas voltar a casa? O futebol não é para miúdas, é de mulheres! Queremos as leoas em Alvalade!

Rossana Amador
Sócia nº75884
Licenciada em Publicidade e Marketing
Tenente da Força Aérea na Reserva