O Sporting sempre foi um clube de formação. Em boa verdade todos os clubes de futebol, são clubes formadores, partindo do princípio que têm equipas a competir nos vários escalões. A razão pelo qual se afirma que o Sporting é um clube com uma formação de renome é porém distinta. Não tem necessariamente ligação ao papel de desenvolvimento de uma categoria qualquer de jogadores de futebol, mas sim à nossa capacidade de projectar excelentes jogadores de futebol.

Fomos capazes durante várias décadas de fazer despontar muitas dezenas de jogadores de referência, que ascenderiam ao topo do futebol europeu, criando a imagem de uma "fábrica de talentos", uma estrutura brutalmente eficaz que dava, quase anualmente, novas vedetas às seleções jovens, à primeira equipa, à seleção nacional A e rapidamente aos grandes tubarões europeus. O que fazia esta Super Academia? Sem vos cansar com detalhes e organogramas, fazia melhor, fazia primeiro, fazia mais que as restantes escolas de formação nacionais e muitas internacionais.

A razão pelo qual hoje em dia não olhamos para a nossa Academia como a "jóia da nossa coroa" é simples. Deixou de ser pioneira, deixou de ter os melhores formadores, deixou de ser o grande projecto de desenvolvimento de jogadores nacional e está já bem longe de ser uma das grandes operações de procura de talentos europeia ou mundial. Como fizemos este downgrade? Não fizemos. Simplesmente deixámos de atualizar o modelo e o que era excepcional e inovador, com os anos foi ficando mediano e obsoleto. Não sejamos ingénuos ao afirmar que a "corrida" estaria perdida no momento em que outros emblemas acordassem para os seus projectos de Academia ou investissem nos seus pipelines de formação.

Não foram causas externas que afectaram a nossa Academia e o output da mesma. Na verdade ficámos sentados à sombra, a colher prémios e entretidos a receber louvores, lambuzamo-nos nos editoriais de revistas da especialidade e reportagens de tv estrangeiras. As direções viam os frutos a sair de Alcochete e deixaram de sair de madrugada para cuidar da horta. Os recursos, especialmente humanos, foram saindo. Os substitutos ficariam longe de entender a mecânica e sobretudo a necessidade de permanentemente repensar o modelo e a estrutura, o que seria expectável, quando os dirigentes falavam mais do que faziam no que diz respeito a "cuidar da formação".

Hoje, falta sobretudo gente para cumprir o factor diferenciador da Academia Sporting - a filtragem absurdamente eficaz e evolução surpreendente dos melhores talentos em Portugal. Gente que traga os melhores métodos, a melhor pedagogia, a melhor tecnologia, a melhor nutrição, inovando mais do que os outros, obtendo mais e melhores resultados que os outros. Esta não é a solução, mas é o caminho para chegar à mesma. O problemas é que custa dinheiro, muito dinheiro e esse tem sido o grande obstáculo a um verdadeiro "comeback" do nosso projecto de formação.

Resgatar os jogadores jovens com mais talento custa dinheiro, adquirir o melhor software e hardware custa dinheiro, contratar os melhores treinadores de formação custa dinheiro, tudo somado é todo um novo universo de investimento, uma escalada que os nossos dirigentes não têm revelado vontade nem coragem para empreender, refugiando-se em obras de cosmética com títulos de notícias desproporcionados à dimensão da intervenção. Garanto-vos quando surgir efectivamente um projecto de investimento sério na nossa formação, vamos dar imediatamente por ele, pois envolverá verbas que nunca poderão estar discretamente dissolvidas em melhorias avulsas ou trabalho invisível.

ZeroSeis
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