Quando pensamos no Sporting, pensamos num clube de dimensão internacional, com adeptos e sócios espalhados pelo mundo. Nenhum sportinguista gosta quando vê o nosso clube referido como Sporting de Lisboa. Somos o único clube que ostenta, com orgulho, Portugal no seu nome.

No entanto o dia a dia da vida do Sporting trai esse pensamento. Se é inevitável haver uma concentração desportiva na zona de Lisboa, com o Estádio José Alvalade e a Academia de Alcochete, já é menos compreensível que esse centralismo se reflita na vida extra-desportiva do clube. É hoje em dia consensual que se torna inaceitável que um sócio que vive a centenas, ou milhares, de quilómetros da sede do clube se veja impedido de participar activamente nas decisões que são tomadas.

É por isso imperativo que se pense profundamente sobre as formas de participação nas diversas fases da vida do Sporting, através das diversas assembleias (ordinárias, extraordinárias ou eleitorais). Numa era de transformação digital o voto electrónico surge como solução natural para incluir todos os sócios, estejam eles onde estiverem.

O voto electrónico tem vantagens óbvias e que saltam à vista de todos, sendo as principais:

  • Maior acessibilidade ao sistema de votação, com redução de custos de deslocação aumentando as taxas de participação o que permite que as decisões tomadas sejam mais representativas da real opinião do universo de sócios;
  • Maior velocidade na contagem e entrega dos resultados;
  • Redução de custos com o pessoal necessário para as contagens;

Ainda assim também há dúvidas que pairam sempre que se fala neste tipo de votação:

  • Como garantir que o sistema é fiável e à prova de fraudes;
  • Que tipo de auditoria, técnica e funcional, implementar para garantir o correcto funcionamento do sistema;
  • Como é que se resolve o problema de pessoas que possam não ter acesso à Internet ou que não saibam recorrer a novas tecnologias;
  • Os custos iniciais da implementação de um sistema deste tipo (mas que serão diluídos ao longo do tempo)

O voto electrónico já existe há largas dezenas de anos, tendo até ocorrido alguns testes com cartões perfurados nos anos 60 do século passado. No início dos anos 2000 alguns países europeus testaram sistemas de votação electrónica de modo a averiguar a viabilidade e fiabilidade deste tipo de votação. O sucesso foi relativo, com países a desistirem da ideia, mas temos de ter em conta o estado de evolução da tecnologia da altura e, sobretudo, do acesso à mesma. Muitos destes testes foram feitos com máquinas físicas instaladas em locais de voto o que obrigou as pessoas a deslocarem-se e sairem de casa. As redes não estavam tão desenvolvidas nem existiam mecanismos de controlo e auditoria que hoje se conhecem. A tecnologia é hoje mais ubíqua face ao desenvolvimento quase exponencial das capacidades e disponibilidade da Internet.

Outro factor a ter em conta quando lemos os resultados dos testes acima mencionados prende-se com o tipo de utilização dada ao sistema de voto: eleições para órgãos de soberania de uma nação. Convém por isso recentrar um pouco a questão e, face ao exposto, termos em conta que estamos aqui a falar de votação electrónica para a vida de uma associação desportiva, baseada em tecnologia muito mais avançada do que aquilo que se fazia há 5, 10 ou 20 anos atrás.

Que soluções se podem então ponderar para permitir que todos os sócios do Sporting Clube de Portugal possam participar activamente na vida não-desportiva do clube?

Quando pensamos em sistemas de confiança e transparência uma das tecnologias mais recentes é o Blockchain. Utilizada principalmente para garantir a autenticidade, registo e transparência de transacções de criptomoedas (como o Bitcoin), o Blockchain pode ser utilizado noutro tipo de cenários, como é o caso do registo de votos. Ao recorrer a este tipo de tecnologia, permitimos libertar todo o sistema das amarras das máquinas de votação físicas e passar a ver em cada smartphone ou computador pessoal um ponto de acesso ao voto.

Claro que só o Blockchain não é a resposta para todos os desafios que se colocam no voto electrónico. Se permite ter uma maior confiança no registo dos votos e providencia meios para que auditorias possam ser feitas de forma célere e independentes, há que pensar na forma como se autentica os sócios e garantimos total transparência no sistema de contagem.

Para a autenticação não é preciso reinventar a roda: todos hoje em dia estamos familiarizados com aquilo que é chamado de sistema de autenticação a dois passos. Ao imaginar um sistema de votação online, podemos facilmente pensar numa autenticação como a que temos hoje em dia no site, sendo que na altura do voto um segundo passo de autenticação entra em acção mediante o envio de um código de confirmação para o número de telemóvel associado ao sócio.

Podemos até, para se aumentar ainda mais a segurança acrescentar um terceiro passo: o envio por carta física de um código de acesso ao sistema nos dias antecedentes às eleições, código esse que tem de ser introduzido em conjunto com as credencias de acesso do sócio.

E a transparência do sistema de contagem? Uma das soluções já testada nalguns países é a da publicação do código fonte do sistema para consulta pública. Com um sistema de verificação (por checksum ou hashing) que permita garantir que o código em execução é o mesmo que o código publicado, todos sabem como são feitos os registos dos votos, expondo os mecanismos utilizados para garantir coisas que deveriam ser tão básicas e inequívocas como o secretismo do voto.

Como vemos, existem hoje em dia uma série de soluções que, usadas em conjunto, podem permitir construir um sistema de votação electrónica que sirva os interesses de uma associação desportiva como o Sporting Clube de Portugal e, acima de tudo, servir os interesses dos seus associados.

Haja uma real vontade de quem manda nos destinos do clube e poderemos dizer, daqui a muito pouco tempo, que o Sporting é mesmo de Portugal e não só de Lisboa!

Pedro Anastácio
Engenheiro de Telecomunicações e Informática
Sócio do Sporting Clube de Portugal 44.774-0