Primeiro, vendeu-se que a culpa era da UEFA, apontando-lhe a autoria da exigência que levou milhares de adeptos, cuja entrada se fizesse pela porta 5, a terem que descalçar-se durante a revista que lhes dava acesso a assistir ao Sporting vs Basaksehir. Três dias depois, frente ao Boavista, confirmou-se que a medida era directamente ordenada pela direcção do Sporting Clube de Portugal em prol de uma propalada segurança e de um trabalho invisível para tornar verdadeiramente inesquecível a experiência de ir ver um jogo de futebol ao Estádio José Alvalade.

Ora, em matéria de segurança, seria de todo interessante que a direcção do Sporting Clube de Portugal ou as forças de segurança que ajudam a cumprir estas "apertadas revistas", explicassem o que se evita com o descalçar dos sapatos. Que objectos costumam entrar dentro dos mesmos, por exemplo? Não menos interessante, seria ajudarem o universo de sócios e adeptos leoninos a perceberem o porquê de apenas uma porta ser alvo desse tipo de revista, quando pelo menos duas outras dão acesso ao topo sul do estádio? E já agora, será que estas medidas serão aplicadas aos adeptos das equipas adversárias?

Passamos à experiência. O que será que pensam os adeptos que entram por essa porta e que sentem na pele uma medida francamente discriminatória? Numa altura em que as assistências caem a pique e que nem com a tentativa de oferecer mais de 20 mil bilhetes por jogo se endireitam, quantos destes adeptos deixarão de estar presentes no jogo seguinte, no outro e no outro? Fará parte dessa incrível experiência contribuir para, semana após semana, machucar a paixão dos Sportinguistas?

E esta é a pergunta que esta direcção não coloca a si mesma. Do rol de incompetências que envolve o Doutor Frederico Varandas e as equipas com quem escolheu trabalhar, que vai da amadora preparação das épocas futebolísticas a uma dolorosa incapacidade de comunicar que não se resolve com trocas e baldrocas entre agências de amigos e conhecidos, cada vez mais se destaca a incompetência em promover e alimentar o Sportinguismo.

A cada novo dia, esse Sportinguismo é esquecido por um presidente que se gaba de dizer em entrevista que “ninguém da direção é autista”, mas que, de tão embebida que está num registo de soberba e ao mesmo tempo de revanchismo, se mostra incapaz de ler os sinais. O mesmo presidente que se arrogou na máxima de que com tantos anos de contacto com o balneário o futebol era uma coisa fácil e, hoje, agarra-se, ele e a sua direcção, de forma desesperada à estratégia de alimentar uma guerra que divide os Sportinguistas e que, curiosamente, não mereceu uma linha que fosse nas intenções elencadas no seu programa eleitoral.

Já que de eleições falamos, não podemos deixar de reparar no silêncio a que se votaram todos os ex-candidatos e outros tantos proclamados notáveis. Se calhar vão dizer que nas portas por onde entram não há crianças sentadas no chão, incapazes de atar os sapatos pela sua tenra idade, à espera que o pai ou a mãe acabem de ser revistados para os ajudar a erguer-se no seu pequeno grande Sportinguismo, e por isso não viram, logo não sabem e não comentam.

Se calhar é estratégia, já a pensar num futuro momento de ida às urnas, acreditando que voltará a ser suficiente serem uma cara conhecida e ignorando que, tal como disse Martin Luther King, «no final, vamos lembrar-nos não das palavras dos nossos inimigos, mas do silêncio dos nossos amigos».