Nasci no meio do Alentejo, aquele entre as giestas e o Atlântico, mesmo ali no cabo onde um dia Vasco da Gama cansado de tanto olhar para o azul além da muralha "decidiu fazer-se" ao mar.

1982 foi o ano em que nasci, exatamente meses depois do Sporting Clube de Portugal ter sido campeão e precisaria de esperar pela maioridade para poder celebrar a conquista do troféu maior de Portugal. O meu pai, leão teimoso, vinha de uma família em que o desporto era coisa de ricos, apenas considerado uma perda de tempo, pois quem trabalha a terra de sol a sol já tem "desporto suficiente".

Graças ao meu pai aos 12 anos recebi uma das minhas maiores e melhores prendas, um cartão de sócia juvenil do Sporting Clube de Portugal! Vir ao estádio ficava para aquele domingo do ano em que se jogava às 4 da tarde (e que continua a ser dos meus horários favoritos para ver jogos), normalmente contra o Setúbal, que assim sendo se viam 2 equipas de verde. Ser sócia, ter aquele cartão na mão, numa altura em que felizmente a qualidade da foto não era a melhor e não deixava ver as borbulhas em HD, era um orgulho tão grande para mim, já que estava ainda mais perto no meu grande amor. O Sporting não só era parte de mim como eu era parte do Sporting!

No meio da paixão nunca pensei que aquele cartão me daria a hipótese de um dia poder votar nas eleições do clube, já que para quem está longe não é isso que mais importa, mas sim o cartão com o leão rampante que condiz com o meu coração e com quase todo o meu guarda roupa da altura!

Anos volvidos, o Alentejo e Lisboa ficam apenas a 1h30 de distância e eu já vivo a minutos do meu grande amor! Ser sócia significa muito mais que ir ver os jogos, vestir a verde e branca ou ter o meu nome no Pavilhão. Significa também fazer parte e decidir através do voto o que quero para o Sporting Clube de Portugal!

Durante o tempo em que vivia longe nunca pensei quantos votos teria um dia que atingisse a maioridade, nem que o número desses votos poderia fazer a diferença numa votação uma vez que, tal como nas Forças Armadas, antiguidade é um posto. Se viver longe me fez "abdicar" dos meus direitos de sócia e deixar as decisões em quem estava mais perto, hoje em dia sei que apenas quem é sócio pode decidir o que quer para o seu Sporting e que o cartão é bem mais do que a materialização do meu amor.

Se por um lado compreendo que quem seja sócio há mais tempo já contribuiu mais e que a sua antiguidade deva ser recompensada, por outro lado não faz muito sentido ao vivermos num clube democrático. Verdade seja dita que nem todos já nascemos sócios, tal como nascemos contribuintes, e muito menos ainda nascemos leões, mas será que ter mais votos é a "compensação" certa para oferecer aos sócios? Ser sócio do Sporting Clube de Portugal é bem mais do que ter acesso a descontos e bilhetes, e isso implica também ter o poder, e muitas vezes o dever, de intervir na vida e destinos do clube através da votação.

Muitos dos defensores do status quo atual, referem que oferecer o mesmo número de votos aos sócios independentemente do ano em que são associados é poder possivelmente oferecer de bandeja os destinos do clube nas mãos de quem quer subverter o jogo aos seus interesses. Analisemos bem esta questão, e longe de mim viver na ilusão de que o mundo desportivo funciona sempre dentro das regras do jogo, sem manobras de bastidores, mas afirmar que esta questão pode acontecer não é por si só gravoso? Manter a votação com a clivagem que existe não é na mesma coisa? Poder na mão de alguns? Um sócio valer o mesmo que 20?

Manter a votação como está não é também alhear os mais novos das decisões, e afastar o clube da modernidade, logo o Sporting que sempre quer estar na dianteira das mudanças? Esta perspectiva leva-nos também à visão de que um sócio com mais anos saberá melhor que clube quer e que direção quer tomar. Se muitas vezes a idade nos traz sabedoria, não me parece que no caso das mudanças de paradigma esta seja uma realidade. O Sporting é dos sócios e provavelmente manter a questão como está é querer o Sporting de apenas alguns sócios.

O que sugiro então? Uma solução intermédia!

Se por um lado se deve valorizar mais a opinião de quem já é sócio pagante e com a juba mais ou menos grisalha acompanhou o Sporting e o tornou no que é hoje, inclusive o tornou no Clube que os leões de juba mais reluzente escolheram para si, por outro devemos deixar os mais novos ter também voz ativa. Em vez de um voto sugeria 5 para os primeiros 5 anos de associado. Propunha ouvir as vozes que falam em possível assalto, apesar de não achar que seria exequível, e determinar-se-ia que se seriam necessários 3/5 anos sem interregno para podermos exercer o nosso direito como sócios e poder votar. Para os escalões seguintes sugeria o mesmo.

Isso seria manter o que existe? Não propriamente! A minha sugestão prender-se-ia com aumentar o número de votos para todos atribuindo mais peso para os mais antigos mas também para os mais novos, dirimindo o fosso entre ambos os extremos. Para se aliar a esta medida, a votação à distância, inicialmente feita nos núcleos, de forma a quebrar as barreiras com os sócios e posteriormente num qualquer site ou app seria a verdadeira democratização de forma a que o Sporting não seja só parte de nós, mas nós podermos ser parte do Sporting!

Rossana Amador
Sócia nº75884
Licenciada em Publicidade e Marketing
Tenente da Força Aérea na Reserva